Quando o assunto é construção em madeira engenheirada (Mass Timber), o encantamento estético e a velocidade de montagem costumam ser os primeiros atrativos. No entanto, assim que o projeto avança, surgem as dúvidas clássicas: “E se pegar fogo?”, “A madeira apodrece com a chuva?”, “O piso vai fazer barulho de toc-toc?”.

No segundo episódio do podcast Café com Madeira, Alan Dias e Gabriel Campos, sócios da Timbau, enfrentaram de frente os maiores medos e mitos do mercado. Com base em mais de 20 anos de experiência e na recente atualização da NBR 7190:2022, eles desmistificaram a segurança e o desempenho das estruturas de madeira. Este artigo resume os principais aprendizados do episódio, servindo como um guia definitivo para arquitetos, engenheiros e clientes.

Estruturas Híbridas: A Inteligência dos Materiais

O episódio começa quebrando um paradigma: a ideia de que um prédio de madeira deve ser 100% de madeira. A realidade da engenharia moderna aponta para outro caminho: as estruturas híbridas.

A construção do edifício Murray Grove, em Londres, foi um marco histórico por ser um dos primeiros prédios altos em CLT (Cross Laminated Timber). No entanto, a evolução do mercado mostrou que a abordagem mais inteligente é utilizar cada material onde ele entrega o seu melhor desempenho.

A madeira não vai dominar o mundo sozinha. O aço funciona bem com a madeira, o concreto funciona bem com a madeira. O segredo é saber dosar e colocar cada material no seu quadrado.” — Alan Dias

Em projetos da Timbau, é comum ver o concreto assumindo as fundações e os núcleos rígidos (poços de elevador), o aço vencendo grandes vãos com perfis esbeltos, e a madeira engenheirada (CLT e MLC) trazendo leveza, conforto térmico e sequestro de carbono para as lajes e pilares. Essa mescla não apenas otimiza os custos, mas também resolve desafios complexos de durabilidade e logística.

O Mito do Fogo: A Ciência da Carbonização

O maior medo de quem constrói com madeira é, sem dúvida, o incêndio. A intuição nos diz que a madeira é um material combustível, logo, uma casa de madeira seria perigosa. A ciência da madeira engenheirada, no entanto, prova o contrário.

Diferente de uma estrutura de aço — que colapsa subitamente ao atingir altas temperaturas — a madeira engenheirada possui um comportamento previsível e seguro diante do fogo: a carbonização.

Quando uma peça de MLC (Madeira Laminada Colada) ou CLT é exposta às chamas, a sua camada externa queima e forma uma crosta de carvão. Essa crosta atua como um isolante térmico natural, protegendo o núcleo da peça (onde está a capacidade estrutural) e impedindo que o oxigênio alimente o fogo internamente.

O Cálculo Estrutural e a NBR 7190:2022

A segurança contra incêndio não é baseada em “achismos”, mas em cálculos rigorosos. A norma brasileira NBR 7190:2022 estabelece diretrizes claras para o dimensionamento de estruturas de madeira em situação de incêndio.

O engenheiro calcula a taxa de carbonização da madeira (quantos milímetros ela queima por minuto) e adiciona uma “camada de sacrifício” ao tamanho da peça. Se o Corpo de Bombeiros exige que o prédio resista a 60 minutos de fogo para evacuação segura, a peça de madeira é dimensionada para queimar durante esses 60 minutos sem perder a sua capacidade de sustentação.

O cálculo de incêndio não é feito para salvar o prédio, mas para dar tempo de as pessoas saírem com segurança. E a madeira, por carbonizar de forma lenta e previsível, entrega esse tempo com excelência.” — Gabriel Campos

Além disso, o uso de tintas intumescentes (retardantes de chama) pode ser aplicado para aumentar ainda mais o tempo de resistência, impedindo a propagação inicial do fogo.

Conforto Acústico: O Desafio do “Toc-Toc”

Outro ponto crítico em edifícios de múltiplos pavimentos é o desempenho acústico, especialmente o ruído de impacto (o famoso “toc-toc” de saltos ou objetos caindo no andar de cima).

A madeira é um material leve, o que é excelente para a fundação, mas desafiador para a acústica, já que a massa é a principal barreira contra o som. Para resolver isso e atender aos rigorosos critérios da Norma de Desempenho (NBR 15.575), a engenharia recorre a soluções compostas.

Solução AcústicaComo FuncionaAplicação Ideal
Laje Mista (Madeira + Concreto)Uma fina camada de concreto é aplicada sobre o CLT, adicionando massa e rigidez.Edifícios residenciais e comerciais de múltiplos pavimentos.
Piso Elevado / Contrapiso FlutuanteCriação de um “colchão” de ar ou uso de mantas acústicas (lã de rocha/vidro) entre a estrutura e o piso final.Obras onde não se deseja usar concreto ou reformas.
Forro Acústico SuspensoInstalação de forros de gesso acartonado com isolamento no andar inferior, desvinculados da estrutura principal.Ambientes que exigem alto isolamento aéreo (estúdios, salas de reunião).

Durabilidade e Água: O Verdadeiro Inimigo

Se o fogo é um inimigo previsível, a água é o inimigo silencioso. A umidade constante é a principal causa de patologias na madeira, como o surgimento de fungos e o apodrecimento.

A durabilidade de uma estrutura de madeira começa no projeto arquitetônico. O conceito de Rain Screen (tela de chuva) e o uso de beirais generosos são fundamentais para proteger a estrutura da exposição direta às intempéries.

A Importância da Manutenção Preventiva

A Timbau defende que a cultura da manutenção precisa mudar no Brasil. Assim como um carro perde a garantia se não fizer as revisões periódicas, uma estrutura de madeira exige cuidados.

A aplicação de produtos hidrorrepelentes (como stains, e não vernizes que formam película e descascam) e a inspeção regular de rufos e calhas garantem que a estrutura dure por gerações. Obras icônicas da Timbau, como a cobertura do Shopping Iguatemi Fortaleza (inaugurada em 2014), provam que com o projeto correto e a manutenção adequada, a madeira engenheirada é uma solução para a vida toda.

Conclusão

Os medos em relação à madeira engenheirada são naturais, mas baseados no desconhecimento técnico. A ciência dos materiais, as normas atualizadas e a experiência de empresas como a Timbau provam que é possível construir edifícios seguros, duráveis e confortáveis utilizando o Mass Timber.

A chave para o sucesso está em não tratar a madeira como um material mágico que resolve tudo sozinho, mas sim integrá-la de forma inteligente com outros materiais (estruturas híbridas), respeitar suas características físicas (proteção contra água) e aplicar a engenharia correta (cálculo de carbonização e acústica).

Este artigo foi baseado no Episódio 02 do podcast “Café com Madeira”. Para aprofundar seus conhecimentos e ouvir as histórias completas, siga a Timbau nas redes sociais e inscreva-se no canal do YouTube.