A Madeira Laminada Colada (MLC), internacionalmente conhecida como Glulam (Glued Laminated Timber), consolidou-se como um dos materiais mais inovadores e sustentáveis da construção civil moderna. Este produto de madeira engenheirada, formado pela colagem de lâminas de madeira selecionadas, permite a criação de componentes estruturais de alta resistência e grande versatilidade formal, capazes de vencer grandes vãos com leveza e eficiência. No Brasil, um país com vasta vocação florestal, a produção de MLC é predominantemente centrada em duas espécies de reflorestamento: Pinus e Eucalipto.
Uma “briga” conceitual frequentemente permeia as discussões técnicas sobre qual das duas espécies seria superior para a produção de MLC. Este artigo visa encerrar esse debate, oferecendo uma análise técnica aprofundada que explora as qualidades, diferenças e aplicações de cada uma. Abordaremos os nomes científicos, as propriedades de resistência em conformidade com a norma ABNT NBR 7190:2022, a disponibilidade e certificação no Brasil, o uso internacional e os processos de tratamento em autoclave. Por fim, citaremos a Timbau Estruturas como um exemplo prático de empresa que utiliza ambas as espécies de forma complementar e inteligente, demonstrando que a verdadeira excelência não está na escolha de uma em detrimento da outra, mas na sabedoria de aplicar cada uma onde suas qualidades são maximizadas.
As Espécies em Foco: Características e Propriedades
A seleção da matéria-prima é um fator determinante na performance final de uma peça de MLC. Pinus e Eucalipto, embora ambos provenientes de florestas plantadas, possuem características intrínsecas distintas que influenciam diretamente o dimensionamento e a aplicação das estruturas.

Pinus (Gênero Pinus)
As espécies de Pinus mais utilizadas para fins estruturais no Brasil são o Pinus elliottii e o Pinus taeda. Originárias do sudeste dos Estados Unidos, foram amplamente introduzidas no Sul e Sudeste do Brasil, onde se adaptaram com excelência. No mercado internacional, são frequentemente agrupadas sob a designação comercial de Southern Yellow Pine.
Trata-se de uma madeira de baixa densidade, com massa específica aparente a 15% de umidade em torno de 480 kg/m³ para o P. elliottii [1]. Sua coloração é tipicamente branco-amarelada, com grã direita e textura fina, o que facilita o processamento industrial. Sua principal vantagem reside na excelente trabalhabilidade e, sobretudo, na sua permeabilidade, que a torna extremamente fácil de tratar em autoclave, garantindo elevada durabilidade mesmo em condições de exposição a intempéries.

Eucalipto (Gênero Eucalyptus)
O Eucalipto utilizado para fins estruturais no Brasil abrange diversas espécies, com destaque para o Eucalyptus grandis e, principalmente, para o híbrido Eucalyptus urograndis (um cruzamento entre E. grandis e E. urophylla). Este híbrido combina o rápido crescimento do E. grandis com a maior densidade e adaptabilidade do E. urophylla, tornando-se o mais plantado no país.
É uma madeira de folhosa (angiosperma) com densidade que varia de média a alta, geralmente superior a 550 kg/m³, podendo ultrapassar os 650 kg/m³ dependendo do clone e da idade de corte. Essa maior densidade se traduz em propriedades mecânicas superiores, como maior resistência à compressão e à flexão. Sua coloração é mais variada, indo do bege-rosado ao castanho-claro. Em contrapartida, o cerne do Eucalipto apresenta baixa permeabilidade, o que torna seu tratamento em autoclave um processo mais desafiador e técnico quando comparado ao Pinus.
Tabela Comparativa de Propriedades
A tabela abaixo resume as principais diferenças técnicas entre as duas espécies, com base em valores médios de referência.

A Norma ABNT NBR 7190:2022 e a Madeira Engenheirada
A atualização da norma brasileira de projetos de estruturas de madeira, ABNT NBR 7190, publicada em 2022, representou um marco para o setor. A nova versão abandonou a antiga classificação baseada em grupos botânicos (coníferas e dicotiledôneas) e adotou um sistema mais preciso, baseado em classes de resistência à compressão paralela às fibras (C20, C25, C30 para coníferas; C20, C30, C40, C60 para dicotiledôneas na versão antiga).
Essa mudança foi fundamental para posicionar o Eucalipto de forma mais adequada, permitindo que sua alta resistência fosse devidamente aproveitada nos cálculos estruturais. A norma também incluiu, de forma mais explícita, diretrizes para o dimensionamento de produtos de madeira engenheirada, como a MLC e a MLCC (CLT), refletindo a evolução tecnológica do setor [2].
Um ponto técnico relevante abordado em estudos e contemplado pela norma é a pressão de colagem para a fabricação da MLC. Recomenda-se uma pressão de 0,7 MPa para madeiras de baixa densidade como o Pinus, e uma pressão superior, de 1,2 MPa, para madeiras de média a alta densidade como o Eucalipto, a fim de garantir uma linha de cola íntegra e resistente [3].
Disponibilidade, Certificação e Mercado Global
O Brasil possui uma área de florestas plantadas de aproximadamente 9,7 milhões de hectares, dos quais cerca de 7,5 milhões são de Eucalipto e 1,9 milhão são de Pinus [4]. Essa vasta disponibilidade de matéria-prima confere ao país um enorme potencial competitivo. A maior parte dessas plantações possui certificação de manejo florestal, como o FSC (Forest Stewardship Council) e o PEFC (Programme for the Endorsement of Forest Certification), que atestam a origem sustentável da madeira e são pré-requisitos para acesso a mercados exigentes, como o europeu e o norte-americano [5].
O mercado global de MLC está em franca expansão, impulsionado pela busca por construções de baixo carbono. O Pinus brasileiro, como Southern Yellow Pine, já possui boa aceitação internacional. O Eucalipto, por sua vez, vem ganhando espaço como uma madeira de alta performance, embora enfrente a concorrência de espécies tradicionais de folhosas de clima temperado.
Tratamento em Autoclave: Garantia de Durabilidade
Para garantir a longevidade da estrutura, especialmente em ambientes externos ou úmidos, a madeira deve passar por um tratamento preservativo em autoclave pelo processo de vácuo-pressão. Os produtos mais comuns no Brasil são o CCA (Arseniato de Cobre Cromatado) e o CCB (Borato de Cobre Cromatado), ambos registrados e fiscalizados pelo IBAMA. Algumas indústrias também tem utilizado o microCAC.
- Pinus: Por ser muito permeável, o Pinus absorve o produto preservativo de forma fácil e uniforme, resultando em uma peça totalmente protegida e com vida útil que pode superar 30 anos.
- Eucalipto: O tratamento do Eucalipto é mais complexo. O alburno (camada externa do tronco) é permeável, mas o cerne (parte interna) é praticamente impermeável. Isso exige técnicas apuradas de secagem e tratamento para garantir uma proteção eficaz, sendo um desafio técnico que a indústria tem superado com tecnologia [6].
Estudo de Caso
A Timbau Estruturas é uma das empresas pioneiras e de maior destaque no cenário da madeira engenheirada no Brasil. Com mais de 20 anos de experiência, a empresa demonstra na prática a filosofia da complementaridade entre as espécies. Em seu portfólio, é possível encontrar obras emblemáticas que utilizam tanto MLC de Pinus quanto de Eucalipto, e até mesmo soluções híbridas.
A Timbau seleciona a espécie com base na necessidade específica de cada projeto. Em grandes coberturas de shoppings ou centros de convenções, onde vencer grandes vãos com leveza é crucial, o MLC de Pinus é frequentemente a escolha ideal. Em projetos que demandam altíssima resistência em peças de menor seção transversal ou em estruturas de madeira roliça aparente, como em residências de alto padrão ou haras, o Eucalipto demonstra todo o seu potencial [7]. Essa abordagem pragmática e técnica, focada na melhor solução para o cliente, ilustra perfeitamente como as duas espécies podem e devem coexistir.

O Fim da “Briga” e a Complementaridade Inteligente
A análise técnica das propriedades, normas e aplicações da MLC de Pinus e Eucalipto torna claro que a “briga” para definir uma espécie como superior é infundada. Não existe a “melhor madeira”, mas sim a madeira mais adequada para cada situação.
O Pinus se destaca pela sua leveza, excelente processabilidade e facilidade de tratamento, sendo a escolha ideal para estruturas de grandes vãos onde a otimização do peso próprio é fundamental. Sua padronização e previsibilidade o tornam um material extremamente confiável para a indústria da construção.
O Eucalipto, por sua vez, oferece uma resistência mecânica e uma densidade superiores, permitindo vencer os mesmos vãos com peças de menor dimensão ou suportar cargas mais elevadas. É a solução de alta performance para projetos que demandam robustez e compacidade.
A verdadeira revolução da construção em madeira no Brasil não virá da predominância de uma espécie sobre a outra, mas do uso inteligente e combinado de ambas. A capacidade de um projetista ou construtor de especificar MLC de Pinus para uma viga principal e MLC de Eucalipto para um pilar super-solicitado no mesmo projeto é o que define a excelência técnica. Empresas como a Timbau já aplicam esse conhecimento, provando que, juntas, essas duas espécies formam uma dupla imbatível, capaz de atender a qualquer desafio da arquitetura e da engenharia com eficiência, beleza e, acima de tudo, sustentabilidade.
Eng. Alan Dias
Referências
[1] Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Informações sobre madeiras – Pinus-eliote. Disponível em: https://madeiras.ipt.br/pinus-eliote/
[2] URBEM. Atualização da NBR 7190:2022 – Avanços e Melhorias para o Projeto de Estruturas de Madeira. Disponível em: https://urbembr.com/atualizacao-da-nbr-71902022-avancos-e-melhorias-para-o-projeto-de-estruturas-de-madeira/
[3] GOMES, N. B. et al. Análise dos parâmetros de fabricação de elementos de madeira lamelada colada na resposta da qualidade de colagem com base na NBR 7190-6. Ambiente Construído, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ac/a/bk9zCJcXNf68nQTh9jz5qtp/
[4] Agência Brasil. Florestas plantadas no Brasil ocuparam 9,5 milhões de hectares em 2021. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2022-09/florestas-plantadas-no-brasil-ocuparam-95-milhoes-hectares-2021
[5] FSC Brasil. New FSC Forest Stewardship Standard for Plantations in Brazil. Disponível em: https://fsc.org/en/newscentre/general-news/new-fsc-forest-stewardship-standard-for-plantations-in-brazil
[6] VIVIAN, M. A. et al. Qualidade do tratamento preservativo em autoclave para a madeira de Eucalyptus grandis e Eucalyptus cloeziana. Scientia Forestalis, 2012. Disponível em: https://www.ipef.br/publicacoes/scientia/nr96/cap02.pdf
[7] Timbau Estruturas. O que faz da MADEIRA MASSIVA o futuro da construção? Disponível em: https://timbauestruturas.com.br/2019/02/11/o-que-faz-da-madeira-massiva-o-futuro-da-construcao/