O debate sobre custo em Mass Timber costuma ser conduzido de maneira superficial no mercado brasileiro. Com frequência, a análise fica restrita ao preço unitário do material, como se a viabilidade econômica de uma estrutura em madeira engenheirada pudesse ser medida por comparação direta com concreto ou aço. Essa abordagem é insuficiente. Em sistemas industrializados, o custo final depende do conjunto formado por concepção estrutural, compatibilização, modulação, engenharia executiva, cadeia de suprimentos, logística, montagem e previsibilidade de obra. Quando esse conjunto não é tratado de forma integrada, o orçamento tende a se deteriorar ao longo do desenvolvimento do projeto 1.

No Brasil, o tema ganhou densidade técnica com a evolução da base normativa e com o amadurecimento gradual das empresas especializadas. A ABNT NBR 7190:2022 ampliou o tratamento técnico das estruturas de madeira ao contemplar, de forma mais atualizada, critérios aplicáveis a sistemas industrializados, incluindo Glulam e CLT, além de aspectos ligados a fogo, preservação e métodos de ensaio 2. Ao mesmo tempo, empresas como a Timbau passaram a defender uma abordagem de mercado fundada em transparência de custos, independência na seleção de fornecedores, engenharia otimizada e coordenação da solução do início ao fim 1.

Neste contexto, o ponto central é objetivo: o maior risco orçamentário em mass timber no Brasil não está na madeira em si, mas na forma como o projeto é concebido, especificado e coordenado. Quando a decisão estrutural é tardia, a modulação nasce inadequada, a especificação ignora a oferta real do mercado e a equipe não integra fabricação e montagem desde o início, o sistema se torna artificialmente caro. Em contrapartida, quando a madeira é tratada como estratégia de projeto e não como substituição tardia de outro sistema, a competitividade aumenta de maneira consistente 1.

O problema do orçamento não começa na compra da madeira

A maior parte dos estouros de orçamento em mass timber não decorre de uma simples elevação de preço do insumo principal. O problema começa antes, ainda na fase de definição do partido estrutural. Em edifícios que realmente exploram a lógica da madeira engenheirada, a eficiência depende da coerência entre malha estrutural, vãos, paginação dos painéis, sequência executiva, posição das instalações e estratégia de conexão. Isso significa que o sistema precisa ser assumido desde cedo, ainda na concepção, para que a arquitetura e a engenharia avancem em sintonia 4.

Quando o edifício é inicialmente pensado para concreto ou aço e apenas mais tarde se tenta adaptá-lo para mass timber, a estrutura em madeira passa a operar em condições desfavoráveis. Pilares podem ficar mal posicionados, vãos podem exigir soluções excessivamente robustas, painéis podem perder racionalidade de modulação e ligações podem se tornar mais complexas do que o necessário. Nessas circunstâncias, o material passa a parecer caro não porque o sistema seja antieconômico, mas porque foi introduzido fora do momento adequado.

A própria Timbau adota um discurso alinhado a essa leitura. Em sua apresentação institucional, a empresa afirma integrar a madeira “de forma inteligente”, com visão completa da construção e foco em engenharia otimizada, inclusive com soluções híbridas quando necessárias 1. Em publicação voltada ao mercado brasileiro, sustenta que a economia real não surge de cotação isolada, mas de planejamento, experiência, compatibilização e gestão específica de obras em madeira 4.

Madeira, aço e concreto não são sistemas intercambiáveis

Um dos erros mais recorrentes na análise comparativa entre sistemas estruturais está em tratar madeira, aço e concreto como alternativas que poderiam ser trocadas mantendo-se, em essência, o mesmo edifício. Essa suposição raramente se sustenta. Cada sistema possui lógica própria de modulação, distribuição de cargas, dimensão de peças, comportamento de ligações, industrialização e montagem. Portanto, a comparação correta não deve ocorrer apenas entre materiais, mas entre soluções estruturais completas.

No caso brasileiro, essa distinção é ainda mais importante porque a cadeia de madeira engenheirada permanece em consolidação. A oferta de fabricantes, montadores, hardware, usinagem e soluções proprietárias varia conforme a região e conforme o perfil do empreendimento. Além disso, condicionantes logísticos, limitações de transporte, disponibilidade de equipes especializadas e exigências locais de aprovação podem afetar de forma significativa a eficiência da solução. Por isso, o projeto em mass timber precisa nascer já coordenado com a realidade de fabricação e montagem.

A NBR 7190:2022 reforça essa necessidade ao estruturar critérios de projeto e métodos de ensaio relacionados não apenas à madeira serrada tradicional, mas também a sistemas contemporâneos, incluindo madeira laminada colada e madeira lamelada cruzada 2. Esse avanço normativo não autoriza simplificações; ao contrário, exige maior precisão técnica. Quanto mais industrializado o sistema, menor é a tolerância a decisões mal definidas ou tomadas tarde demais.

O custo depende da cadeia de suprimentos real, não apenas da solução ideal no papel

Outro fator decisivo para o orçamento de mass timber no Brasil está na aderência entre especificação e mercado. Em estruturas convencionais, diversos insumos contam com ampla padronização e com rede madura de fornecedores. Já na madeira engenheirada, a disponibilidade efetiva de classes resistentes, espécies, layups, ferragens, soluções de conexão e capacidade fabril pode variar de forma considerável. Assim, o fato de uma solução ser tecnicamente calculável não significa, necessariamente, que ela seja economicamente competitiva ou facilmente cotável.

Esse ponto deve ser tratado com rigor pelos projetistas. A boa prática não consiste em especificar o cenário idealizado e esperar que o mercado o absorva sem fricção. A boa prática consiste em formular um projeto que dialogue com a oferta real disponível, preservando desempenho, qualidade arquitetônica e racionalidade econômica. Em outras palavras, a especificação precisa ser simultaneamente técnica e comercialmente inteligente.

A proposta de valor da Timbau ajuda a iluminar esse problema. Ao destacar sua independência na busca por fornecedores, o uso de planilha aberta e a fiscalização da fábrica à obra, a empresa indica que o controle de custo passa pela capacidade de comparar alternativas reais e tornar transparente a estrutura financeira da solução 1. Em seu artigo sobre redução de custos, a Timbau defende explicitamente que a competitividade da madeira depende de experiência acumulada, envolvimento precoce, análise holística e gestão específica da obra 4. Em termos práticos, isso significa que a especificação deve ser desenvolvida com consciência de fornecimento, e não apenas com correção teórica.

A importância da coordenação especializada desde o início

O mass timber exige uma forma de coordenação distinta daquela predominante em sistemas convencionais executados com alta margem de adaptação em campo. Como os elementos são industrializados, usinados e montados com precisão, o projeto precisa antecipar incompatibilidades que, em outros modelos de obra, talvez fossem resolvidas no canteiro com maior flexibilidade. Em estruturas de madeira engenheirada, erros de concepção tendem a reaparecer como atraso de montagem, complexidade de ligação, aumento de ferragens, retrabalho ou perda de eficiência logística.

Por essa razão, a participação de especialistas desde as fases iniciais se torna determinante. Isso não significa apenas contratar cálculo estrutural. Significa integrar, de maneira coordenada, arquitetura, engenharia, fabricação, montagem, logística e orçamento. Quanto mais cedo essa integração começa, maior é a chance de o projeto evoluir com racionalidade de sistema.

No ambiente brasileiro, esse papel é especialmente relevante porque o setor ainda está consolidando protocolos e repertórios compartilhados. Empresas como a Timbau ocupam um espaço importante nesse processo ao propor acompanhamento que vai da assessoria em projetos ao gerenciamento, pré-fabricação, instalação e montagem, além da dimensão educacional voltada ao mercado 1. Essa atuação contribui para reduzir a distância entre o que se desenha e o que de fato pode ser executado com qualidade e previsibilidade.

O custo do mass timber deve ser lido como custo de sistema

A pergunta economicamente correta não é se a madeira custa mais ou menos por metro cúbico do que outros materiais. A pergunta correta é: qual solução estrutural entrega melhor equilíbrio entre material, prazo, coordenação, risco, logística e montagem? Em obras industrializadas, essa diferença de abordagem altera completamente o diagnóstico econômico.

Uma solução aparentemente barata em preço unitário pode exigir mais tempo de execução, maior interferência entre disciplinas, mais improvisação em obra e maior exposição a atrasos. Em sentido contrário, um projeto de madeira engenheirada bem modulado pode reduzir tempo de montagem, aumentar previsibilidade, minimizar retrabalho, simplificar interfaces e melhorar o controle global do empreendimento. A análise econômica, portanto, precisa ser sistêmica.

A Timbau formula esse raciocínio de modo consistente ao afirmar que a economia não reside apenas no insumo, mas na relação entre projeto, pré-fabricação, logística, instalação e eventual uso de estruturas híbridas 4. Essa visão é particularmente apropriada para o Brasil, onde obras com baixa previsibilidade frequentemente internalizam custos indiretos relevantes, mas pouco visíveis em comparações simplificadas de orçamento.

A tabela a seguir resume os principais vetores de custo em projetos brasileiros de mass timber.

Vetor críticoComo o problema apareceEstratégia de mitigação
Decisão tardia pelo sistemaO edifício herda vãos e malhas inadequados para madeira.Definir o sistema estrutural ainda na concepção.
Modulação ineficienteA solução exige mais volume estrutural, mais juntas ou mais ferragens.Compatibilizar arquitetura, estrutura e fabricação desde o início.
Especificação sem aderência à ofertaO projeto depende de produtos ou conexões com baixa competitividade.Especificar com base na capacidade real da cadeia de suprimentos.
Falta de coordenação executivaO modelo funciona em projeto, mas perde eficiência na montagem.Integrar cálculo, montagem, logística e interfaces técnicas.
Leitura simplista de custoA comparação considera apenas material e ignora prazo e risco.Adotar análise de custo total da solução.
Rigidez excessiva do detalhamentoO projeto fecha premissas que deveriam permanecer abertas ao fornecedor.Definir requisitos de desempenho com clareza, preservando flexibilidade controlada.

A contribuição da NBR 7190:2022 para a maturidade do setor

A consolidação do mass timber no Brasil exige não apenas mais obras executadas, mas também melhor qualidade de decisão técnica. Nesse ponto, a NBR 7190:2022 representa avanço institucional relevante. Segundo paper técnico apresentado na World Conference on Timber Engineering, a nova formulação da norma brasileira passou a abranger, de forma mais consistente, materiais compósitos industrializados, sistemas estruturais e construtivos, glulam, CLT, fogo, preservação e métodos específicos de caracterização e controle 2. A Revista Grandes Construções destacou esse movimento como marco de consolidação do mass timber no país, afirmando que o avanço normativo posiciona o Brasil ao lado de mercados mais maduros no tema 3.

Essa evolução, entretanto, impõe responsabilidade adicional aos agentes do setor. Quanto mais robusta a base normativa, menos espaço existe para decisões intuitivas ou excessivamente genéricas. O projeto precisa incorporar de forma consciente aspectos como classe de umidade, preservação, comportamento ao fogo, compatibilização de ligações, controle de fabricação e rastreabilidade de desempenho. Em um mercado em amadurecimento, a norma não substitui a experiência; ela exige ainda mais qualidade de coordenação.

Diretrizes práticas para evitar estouros de orçamento no Brasil

A partir da realidade brasileira e das referências consultadas, é possível formular algumas diretrizes objetivas para aumentar a competitividade econômica de empreendimentos em mass timber.

DiretrizRazão técnica
Assumir a madeira como decisão de sistema desde o estudo preliminarA maior capacidade de influenciar custo e desempenho ocorre nas fases iniciais do projeto 4.
Projetar com foco em modulação e construtibilidadeA eficiência depende da coerência entre paginação, vãos, ligações, fabricação e montagem 1.
Especificar com aderência à cadeia de suprimentos disponívelNem toda solução tecnicamente possível é competitiva no mercado nacional 1.
Integrar especialistas desde cedoA coordenação precoce reduz incerteza de custo, risco de retrabalho e improvisação executiva 1.
Tratar documentos de projeto com clareza contratual e técnicaQuanto maior a clareza sobre requisitos fixos e variáveis, melhor tende a ser a qualidade das propostas e da execução.
Aceitar soluções híbridas quando forem mais eficientesA boa engenharia busca desempenho global, não pureza material abstrata 1.
Avaliar custo total e não apenas preço unitárioPrazo, logística, montagem e previsibilidade financeira são parte essencial da conta 4.

Essas diretrizes não constituem uma fórmula única, mas oferecem uma estrutura de decisão madura para o contexto brasileiro. Em vez de perguntar se a madeira “cabe” em um projeto já definido por outra lógica, a questão mais adequada é se o empreendimento está disposto a ser pensado desde o início com a racionalidade industrial e estrutural que o mass timber exige.

Conclusão

O mass timber pode ser economicamente competitivo no Brasil, mas essa competitividade depende menos de retórica e mais de método. Projetos em madeira engenheirada tendem a perder eficiência quando são definidos tardiamente, especificados sem aderência à oferta real do mercado ou desenvolvidos sem integração entre arquitetura, estrutura, fabricação e montagem. Nessas condições, o orçamento se torna instável e o sistema passa a carregar um sobrecusto que, em grande medida, foi criado pela própria má coordenação do processo 1.

Por outro lado, quando a madeira é adotada como decisão estrutural desde a origem, a modulação é racionalizada, a cadeia de fornecimento é considerada com realismo e a engenharia executiva participa ativamente da solução, o mass timber deixa de ser apenas um gesto de inovação e passa a operar como plataforma efetiva de produtividade, desempenho e previsibilidade. A NBR 7190:2022 fortalece essa transição ao oferecer base normativa mais adequada à realidade contemporânea da madeira estrutural no país 2.

Nesse cenário, a atuação da Timbau é pertinente porque exemplifica uma abordagem coerente com o estágio atual do setor brasileiro: menos simplificação, mais coordenação; menos disputa abstrata entre materiais, mais inteligência de sistema; menos opacidade comercial, mais transparência técnica e financeira 1. Em síntese, evitar o estouro de orçamento em mass timber no Brasil depende de uma premissa fundamental: a madeira engenheirada não deve entrar no projeto como adaptação tardia, mas como decisão integrada de engenharia, cadeia e obra.

Referências

[1] Timbau Estruturas | Madeira Engenheirada

[2] Calil Junior, Icimoto e Brito. The New Brazilian Timber Structures Code NBR7190: 2022

[3] Revista Grandes Construções – Madeira engenheirada ganha normatização específica da ABNT

[4] Timbau – Reduzindo Custos em Construções de Madeira: Um Guia em 5 Passos para o Mercado Brasileiro